América do Sul · Chile

De Santiago ao Atacama: Uma grande rota de Carro pelo Chile

· 6 min de leitura

De Santiago ao Atacama: Uma grande rota de Carro pelo Chile

Viajar de carro de Santiago até San Pedro de Atacama é uma experiência que revela paisagens únicas e a imensidão do deserto chileno.

Neste artigo

Viajar de carro de Santiago até San Pedro de Atacama é uma experiência no mínimo diferente, exige encarar mais de 3.000 quilômetros entre ida e volta e no caminho, tirando quando se passa por alguma cidade, o que marca é a solidão do deserto, onde a estrada longa é cortada quase apenas pelo movimento de caminhões e por paradouros (áreas de descanso) meio que perdidos no decorrer do trajeto.

Saindo de Santiago: O Início da Jornada e a Surpresa dos Pedágios

Chegamos ao Chile no início de novembro, em plena primavera.

No Aeroporto de Santiago, alugar um carro foi relativamente fácil e em pouco tempo já estávamos prontos para partir. Pegamos a Autopista Central em direção ao centro da cidade, mas logo surgiram bipes repetitivos no carro a cada 5 minutos que nos deixaram preocupados, pensamos que o veículo tinha estragado.

Ao parar para averiguar, descobrimos que vinham do sistema de pedágio eletrônico. Cada "pi-pi" marcava uma cobrança automática, e ficamos chocados com a quantidade de pedágios em Santiago.

Dica Prática: Pesquise o valor dos pedágios na época de sua viagem, coloque isto no orçamento e leve dinheiro vivo, pois você está indo para uma área desértica e às vezes não tem internet.

Apesar da quantidade de cobranças, as estradas no Chile são um verdadeiro tapete, com asfalto impecável e ótima sinalização.

Primeira Parada: Valparaíso e Viña del Mar

Nossa primeira parada foi em Valparaíso e Viña del Mar, as duas cidades costeiras mais famosas do Chile.

Em Valparaíso, percorremos a parte alta da cidade com suas ruas coloridas e cheias de arte urbana espalhada pelas ladeiras, deu pra sentir a vibração cultural da cidade, o bairro histórico é Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Ladeira íngreme no Cerro Alegre, em Valparaíso, cercada por casarões históricos pintados com cores vibrantes e cobertos por grafites artísticos.

Em Viña del Mar, visitamos o Museu Arqueológico Fonck, que exibe um Moai da Ilha de Páscoa logo na entrada. Foi impressionante ver de perto essa peça histórica tão misteriosa e esta é uma das poucas peças originais da Ilha de Páscoa que saíram do território chileno insular, trazida décadas atrás como parte de um acordo de pesquisa arqueológica.

Estátua original de um Moai da Ilha de Páscoa feita de pedra vulcânica escura posicionada no jardim de entrada do Museu Fonck em Viña del Mar.

Mudando de assunto, em Viña um detalhe que nos chocou foi a quantidade de placas alertando sobre tsunamis na beira-mar. O Chile é um dos países com maior atividade sísmica do mundo e cidades litorâneas planas e densamente povoadas como Viña del Mar e a vizinha Valparaíso correm riscos reais em caso de grandes terremotos no oceano e por isto os avisos de prevenção são levados muito a sério.

E para encerrar o dia fomos curtir o famoso pôr do sol em Viña del Mar sentados na mureta perto do Castillo Wulff assistindo às ondas do Pacífico baterem nas rochas, até hoje lembramos deste dia, foi lindo.

Pôr do sol na orla marítima de Viña del Mar com as ondas do Oceano Pacífico quebrando nas pedras ao fundo.

Seguindo Viagem: La Serena e Muelle de San Agustín

Deixando Viña del Mar para trás, pegamos a estrada em direção a La Serena. Fizemos uma parada no Muelle de San Agustín, em Punta de Choros, onde pudemos admirar mais uma vez o Pacífico em todo o seu esplendor.

Continuamos nossa jornada pelo deserto, costeando a Quebrada de Chañaral, que é como se fosse uma fenda aberta nas rochas. Esse é o tipo de estrada onde a imensidão faz a gente se sentir bem pequeno e emociona.

Dica Prática: Nos trechos mais desérticos da rota entre La Serena e San Pedro de Atacama, os postos de combustível ficam distantes uns dos outros, então vale abastecer sempre que o tanque passar da metade. Levar dinheiro em espécie também ajuda, porque nem todo pedágio ou posto pequeno da região aceita cartão internacional sem problemas.

Noite Misteriosa entre Bahía Inglesa e Caldera

Decidimos passar a noite em uma pequena cidade entre Bahía Inglesa e Caldera, um lugar tão isolado que parecia cenário de um filme de suspense. Havia um farol sozinho iluminando a costa, e um silêncio quase assustador pairava no ar, mas achamos uma pousada deliciosa, que tinha até piscina aquecida, ajudou muito a tirar o pó da estrada.

Mulher posando para foto na estrutura de madeira do Muelle de San Agustín, em Punta de Choros, com a imensidão azul do Oceano Pacífico ao fundo.

Parque Pan de Açúcar: Imensidão e Liberdade

Na manhã seguinte, pegamos a estrada em direção ao Parque Nacional Pan de Azúcar, uma região única que fica entre o Deserto do Atacama e o Oceano Pacífico. A partir daí tivemos a oportunidade de ver o deserto em toda a sua magnitude. A sensação de isolamento e liberdade ao mesmo tempo é absurda.

Homem em pé na ponta de uma estrada de asfalto vazia cortando a imensidão árida do Deserto do Atacama cercada por montanhas de terra batida na Quebrada de Chañaral.

Taltal: Charme Inglês e História Portuária

Seguimos pela estrada até Taltal, uma cidade que nos surpreendeu pela organização e um astral inglês, inclusive na arquitetura.

As ruas limpas e bem cuidadas, com casas de madeira no estilo vitoriano, lembram o passado agitado da cidade como porto importante no final do século XIX e início do século XX devido à exploração de salitre.

Tentativa Frustrada no Observatório Paranal

Nos aventuramos rumo ao Observatório Cerro Paranal, um dos maiores centros de astrofísica do mundo.

A combinação de altitude, baixíssima umidade e quase nenhuma poluição luminosa faz do Deserto do Atacama um dos melhores lugares do planeta para observação astronômica, motivo pelo qual observatórios internacionais como o Paranal foram instalados ali.

A mesma aridez extrema que atrai cientistas também foi o motivo de a NASA ter testado equipamentos destinados a Marte na região, aproveitando a semelhança do terreno.

Mas na chegada foi uma tristeza descobrir que o observatório abre apenas duas vezes por mês e é necessário agendar com antecedência, nos sentimos muito amadores rsrsrs...

Embora não tenhamos conseguido visitar o interior, fomos presenteados com um lindo pôr do sol. O céu começou a se encher de estrelas, e o silêncio absoluto do deserto criou uma atmosfera mágica e mesmo a olho nu deu pra ver milhares de estrelas.

Dica Prática: Pesquise e reserve sua visita ao Observatório Paranal com antecedência, pois as vagas são limitadas.

Viajante em pé, de frente, no meio de uma estrada de terra batida durante viagem de carro pelo Deserto do Atacama, ilustrando a imensidão da paisagem sob o céu azul.

Antofagasta: História e Ciência no Deserto

Chegamos a Antofagasta ao anoitecer.

No dia seguinte visitamos a Portada, um arco natural de pedra esculpido pelas ondas do Pacífico e fomos também ao Museu Ruínas de Huanchaca. Lá vimos uma réplica do carrinho robô da NASA que foi enviado para Marte, mas que antes "treinou" no Deserto do Atacama devido à similaridade do terreno.

Antofagasta é uma cidade moderna e vale a pena ficar pelo menos um dia para conhecer os arredores, mas infelizmente passamos rápido, pois o deserto voltou a nos chamar.

Casal de viajantes abraçados na grade do mirante do Monumento Natural La Portada, em Antofagasta, de costas para o famoso arco de pedra que forma um paredão íngreme esculpido pelo mar com um buraco no meio.

Chacabuco: A Cidade Fantasma e o Passado Sombrio

Seguimos viagem rumo a São Pedro do Atacama através da Rodovia Pan-americana, onde tivemos uma grata surpresa, vimos um geoglifo enorme, uma obra chamada Sueño y Esperanza, criada em 1993, bem ao estilo das famosas Linhas de Nasca do Peru.

Mas nosso objetivo naquela manhã indo em direção à Serra Gorda, era chegar até Chacabuco, uma cidade fantasma construída nos anos 1920 para abrigar trabalhadores das indústrias de salitre.

Após a falência da empresa inglesa, ficou abandonada e na década de 1970, Chacabuco foi usado como campo de concentração durante a ditadura de Pinochet.

Caminhar pelas ruas desertas e ver as casas corroídas pelo tempo foi uma experiência triste e melancólica.

Geoglifo monumental 'Sueño y Esperanza' desenhado na encosta de uma montanha árida, visto a partir da rodovia Pan-americana durante viagem de carro pelo Deserto do Atacama.

Mirador Likan Antay: O Pôr do Sol no Vale da Lua

Finalmente chegamos em San Pedro de Atacama ao pôr do sol (onde depois visitamos as melhores lagoas do Atacama e fizemos a subida ao Vulcão Láscar). Dirigimos direto para o Mirador Likan Antay, um ponto de observação que oferece uma vista panorâmica do Vale da Lua. O sol refletido nas formações rochosas fez desse momento o fechamento perfeito de toda a viagem.

Mano del Desierto: Despedida em Grande Estilo

Na volta para Santiago, fomos conhecer o Mano del Desierto, uma escultura surreal no meio do Atacama, criada pelo artista Mario Irarrázabal. A mão gigante surge do chão árido, como se estivesse tentando escapar das profundezas da terra.

Enfrentamos uma mini tempestade de areia para chegar até lá, e eu só pensei se o carro alugado tinha seguro para ataque de areia… rsrs.

Dica Prática: No Chile, as locadoras de veículos possuem uma cláusula específica e rígida chamada "daños por elementos climáticos/naturales".

O vento nas estradas levanta muita poeira e pedriscos que podem riscar o para-brisa ou lixar a pintura do carro. Quando for alugar o veículo em Santiago, feche a *cobertura total contra todo riesgo*. E garanta paz de espírito no deserto.

Pôr do Sol no Mirador Likan Antay no Vale da Lua em São Pedro do Atacama

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