América do Sul · Argentina
Atravessando o Estreito de Magalhães, de Río Gallegos a Ushuaia de táxi
· 3 min de leitura

Nós atravessamos o Estreito de Magalhães de táxi, por total falta de escolha, mas acabou sendo uma aventura meio maluca e bem divertida, passados alguns sustos.
Neste artigo
Saímos de El Chaltén de ônibus e chegamos em Río Gallegos achando que era só pegar o ônibus que sai de lá para Ushuaia, comprar a passagem e pronto, era baixa temporada e como não tínhamos conseguido comprar a passagem online, achamos que era apenas um problema no site.
Só que quando chegamos e fomos ver os horários descobrimos que tinham pouquíssimas saídas, o ônibus ia só na terça e no sábado, e o do sábado, que já ia nos obrigar a esperar vários dias, estava lotado.
Então, vendo nosso desespero, a atendente da rodoviária nos sugeriu ir de táxi, apesar da maluquice, achamos um motorista bem simpático, que era ex-motorista de ônibus e o valor que cobrou não saiu tão caro, pois estávamos em três pessoas.
O ônibus de Río Gallegos para Ushuaia
Dica Prática: A empresa que faz esse trecho é a Marga Taqsa e a frequência dos ônibus muda de uma temporada para outra, então não confie só na tabela que achar na internet, confirme direto na rodoviária de Río Gallegos ou no site da Taqsa e, se der, compre com antecedência, porque a gente sentiu na pele que lota.
A saída é de manhã e a viagem leva umas doze horas, porque no meio do caminho tem duas fronteiras e a balsa.
Cruzando a Patagônia de Táxi
Quando entramos no táxi descobrimos que não existe caminho por terra de Río Gallegos até Ushuaia só pela Argentina, a Terra do Fogo é uma ilha dividida entre os dois países e o trecho do estreito onde tem balsa é todo chileno.
Então tínhamos que ser rápidos, pois nosso taxista tinha que ir e voltar para Río Gallegos antes da fronteira fechar. Aí a aventura começou rsrsrs...
O nosso taxista foi a maior parte do tempo a no mínimo 120 km/h nas retas da Patagônia argentina, nem dava para tirar fotos da paisagem, que por sinal é linda!
Até zorro colorado, que é uma raposinha curiosa, a gente viu na beira da estrada.
Na fronteira ele mesmo fez o trâmite da imigração para nós, o que poupou um tempão, e chegar foi um alívio para o coração que estava na mão de tanta velocidade.

As Duas Balsas do Estreito
Aqui vale explicar uma coisa que confunde muita gente, tem dois lugares para atravessar o Estreito de Magalhães de balsa e os dois ficam do lado chileno, operados pela mesma empresa, a Tabsa.
A balsa do caminho de Río Gallegos, que foi a nossa, é a curta, o estreito ali é bem apertado e a travessia dura uns 30 minutos na água, mais ou menos. Ela vai e volta o dia inteiro, não precisa reservar, é chegar, esperar a próxima e embarcar junto com o carro.
A outra é a balsa longa, que sai de Punta Arenas e vai até Porvenir, já na Terra do Fogo chilena, essa é para quem vem pelo Chile e leva aproximadamente uma hora e meia contando o embarque, com horário fixo e bem menos saídas por dia.
Nas duas o vento manda, se estiver muito forte a balsa para e ninguém atravessa, então quem vai fazer esse trecho tem que deixar uma folga no roteiro, principalmente se tiver voo ou reserva esperando em Ushuaia, como era o nosso caso.

Atravessando o Estreito de Magalhães
Devo confessar que foi emocionante atravessar a passagem natural mais famosa e temida entre o Atlântico e o Pacífico, o estreito foi descoberto pelos europeus em 1520 e sempre foi muito temido, um dado curioso e meio assustador é que existem cerca de 150 naufrágios registrados nas suas costas.
Imaginar a gente passando por estas embarcações me deu um frio na espinha, ficamos sentados quietinhos dentro da cabine. E também é por isso que assim que dá um vento mais forte, a balsa fecha.

A cordilheira dos Andes Fueguinos
Saindo da balsa finalmente encontramos uma cidadezinha, chamada Cerro Sombrero, ela fica bem no meio do nada e é o único sinal de civilização naquele trecho desde Río Gallegos.
Foi lá que comemos e seguimos mais 300 km no deserto de estepe, quase sem nada à beira da estrada até Río Grande.
Daí quando chega em Tolhuin tudo começa a mudar, a estrada vai se transformando em uma floresta e, logo em seguida, o carro já começa a subir a Cordilheira dos Andes no Paso Garibaldi.
Aí a gente pirou! Como assim Cordilheira dos Andes? E o Estreito de Magalhães? Acredite se quiser, a cordilheira passa por baixo da água, pode dar um google pra checar.

Uma Cordilheira Submersa
A Cordilheira dos Andes é gerada pelo choque de placas tectônicas gigantescas que esmagam e empurram a terra para cima. No extremo sul do continente, essa grande dobra de pedra continua avançando.
Quando a gente cruzou de balsa não estava em cima da cordilheira, ali o estreito é só um vale profundo escavado por geleiras milhares de anos atrás e afogado pelo mar no meio da estepe.
Os Andes vêm descendo o continente inteiro pelo lado do Pacífico e, bem no fim, fazem uma curva e viram para o leste, cortando o sul da Terra do Fogo.
É por isso que depois de trezentos quilômetros de planície o carro de repente começa a subir. E depois de Ushuaia a cordilheira mergulha mesmo no mar, segue por baixo da água e só volta a aparecer na Antártida.
Nem preciso dizer que enxergar a cordilheira dos Andes Fueguinos com topo de neve foi maravilhoso e seguimos acompanhando-a até Ushuaia, que foi construída literalmente espremida entre a base da Cordilheira dos Andes e as águas do Canal de Beagle.
E, para encerrar essa quase odisseia, chegamos ainda com sol em Ushuaia, às 16h, tendo saído às 7h de Río Gallegos. Apesar do medo da velocidade, nosso motorista era realmente muito experiente. Não aconselho a ninguém fazer essa aventura... mas sugiro fortemente que conheça Ushuaia. Se possível, venha de avião ou se programe muito bem para vir de ônibus.

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