
Os simpáticos cervos que andam livres entre templos patrimônio da UNESCO fazem de Nara uma visita inesquecível.
Neste artigo
Nara, Cervos Sagrados e Templos
Chegamos a Nara a pé da estação de trem, a cidade é fácil de se locomover, relativamente pequena, e muito fofa.
Escolhemos a hospedagem pertinho da estação de trem e do parque para podermos fazer tudo a pé.
Como era alta temporada conseguimos apenas um quarto com várias camas, estilo tipicamente japonês e a maravilha, tinha aquela privada tecnológica no quarto! Pudemos apertar todos os botões para aprender, rsrs..
Na guest house Nara Komachi, que foi nossa primeira acomodação no Japão, a surpresa foi na chegada, é obrigatório tirar os calçados, sempre tem um chinelinho disponível para andar pelo espaço.

À noite saímos para conhecer o calçadão, a cidade é bem sinalizada, tem mapas de localização em vários pontos e muitas galerias com restaurantes e lojas de diversão nesta avenida.
Tem várias galerias com restaurantes maravilhosos, em alguns o atendimento é quase sozinho. Você faz o pedido na entrada, senta na mesa e um robozinho vem te entregar a comida.

Quando sai, você só põe o número da mesa e já paga. Normalmente não tem contato com o humano. Às vezes passa alguém só para ver se está tudo bem, se precisa de guardanapo, se entendeu o pedido.
Máquinas de cápsulas, os bonequinhos fofos
Numa das voltas pela cidade nos deparamos com uma rua cheia de lojas de máquinas de cápsula, tipo um supermercado de bonequinhos, eles chamam de gashapon. O Japão ama bonequinhos fofos, vimos isso por todo o país.

Os Cervos Sagrados do Parque de Nara
O parque de Nara é gigantesco, mas logo na chegada aparecem os cervos, foi um dos momentos mais lindos que vivemos. Interagir com estas criaturas magníficas foi demais.
No xintoísmo os cervos são considerados mensageiros dos deuses.
Uma lenda local diz que uma divindade chegou à cidade montada num cervo branco, por isso os animais foram protegidos.
Hoje em dia andam soltos no parque e em volta dos templos, são mais de 1.300 cervos vivendo ali.

A gente passou boa parte do dia alimentando os cervos, foi muito gratificante essa interação. Eles aprenderam, há muitos anos, a se abaixar para agradecer e receber um biscoito, então eles chegam perto para pedir comida, eles realmente interagem com os turistas.
Na entrada do parque se compram uns biscoitinhos específicos para eles, os shika senbei.
Dica Prática: Ao sair da lojinha evite ficar mostrando os biscoitos, porque tem muitos cervos machos, que são mais “exigentes”.

Um deles, com uma galhadinha, chegou e me deu uma cutucada para eu entregar o biscoito, não machucou, mas foi um sustão. Os biscoitos têm que ficar discretamente guardados, se ficar expondo, corre o risco de vários virem juntos ao mesmo tempo.
Templo Kofukuji em Nara
Na entrada do parque está o Templo Kofukuji, que é Patrimônio Mundial da UNESCO e considerado uma das joias do Japão.
O complexo inteiro é grande, com 7 construções belíssimas de madeira, mas apenas 3 estão abertas ao público, o restante é apenas para contemplação externa.
Logo na entrada tem a área de água para quem chega para lavar as mãos pedindo bênção, a chozuya. Esse gesto na fonte, o temizu, é a purificação simbólica de quem se aproxima do sagrado.
A prática correta é lavar as mãos e depois, despejar um pouco de água da concha na sua própria mão para, então, levar essa água da mão à boca para enxaguar.

Evite lavar o rosto, pois pode ser considerado falta de etiqueta.
Na mesma área ficam penduradas as plaquinhas votivas de madeira, que chamam de ema.
Os visitantes escrevem seus desejos e agradecimentos na beira dessa água para que fiquem sob a proteção e a bênção das divindades e seguem para tocar o sino para purificar o ambiente e afastar os maus espíritos.

Um dos templos mais bonitos que vimos foi o Chukondo (Salão Dourado Central) que é o coração espiritual do complexo, ele abriga relíquias religiosas e esculturas budistas do período Nara, que são consideradas tesouros nacionais do Japão.

Seguimos andando pelo parque e encontramos o templo vizinho, o Todaiji, o maior edifício de madeira do mundo.
Templo Todaiji, o Grande Buda e a Torre do Sino
Na entrada do complexo Todaiji tem o Chumon, um portal histórico reconstruído em 1716, que funciona como uma muralha de proteção ao salão do Buda (Daibutsuden) e nesta área fica a bilheteria para entrar no templo.

Uma coisa que nos espantou muito, foi o ótimo estado de conservação dessas estruturas de madeira.
Não dá para descrever o quanto é grande Daibutsuden (Salão do Grande Buda) no templo Todaiji, é lindo mesmo, é um choque ver uma estrutura tão grande assim de madeira.

Queríamos entrar, mas era tanta gente na bilheteria e no pátio que desistimos.
Seguimos para o centro do parque e encontramos o Nandaimon, o maior portal de templo de todo o Japão. São 18 pilares enormes de madeira que foram reconstruídos em 1199. Tem mais de 800 anos e tem um sistema de encaixe, sem nenhum prego.

Nas laterais desse portal ficam duas estátuas de madeira, conhecidas como Nio (Reis Guardiões Celestiais). São guerreiros musculosos com feições ferozes para espantar os maus espíritos e proteger o Buda, o mais interessante é que nesse lugar os cervos chegam muito perto dos turistas, é tipo o “point” deles.
Este foi um dos lugares que mais gostamos de todo o parque.

Na sequência encontramos a torre do sino, chamada Shoro, é um tesouro nacional fundido em bronze no ano de 752 (época da fundação do templo). Ele pesa impressionantes 26,3 toneladas, o impressionante é que sobreviveu inteiro e funciona até hoje.

Ao seu lado fica o pequeno Salão de Gyoki, construído no período Edo (também conhecido como Período Tokugawa), que guarda a estátua de Gyoki Bosatsu, um dos monges budistas mais importantes do país.

Quando nos demos conta estávamos no pátio do Nigatsu-do (Salão de Fevereiro) dentro do complexo do templo Todaiji.
Este foi sem dúvida, o templo que mais nos sentimos bem, tem uma aura muito especial e uma das melhores vistas da cidade.

Na entrada tem outra fonte de purificação (chozuya) e um quadro negro com uma reflexão simplesmente maravilhosa, que parece que é atualizada todos os meses.
Foi ali que nos demos conta, do caminho espiritual que estávamos seguindo dentro do parque.
O Ensinamento Central estava escrito em Kanji:
Não cometa nenhum mal.
Pratique todas as formas de bem.
Purifique a sua própria mente.
Este é o ensinamento de todos os Budas.
Dhammapada (escritura sagrada do Budismo)
A Explicação estava escrita em Japonês Moderno:
Esforce-se para não cometer as muitas ações ruins que existem e faça muitas coisas boas.
Ensinar a purificar o próprio coração dessa maneira é o ensinamento que o Buda nos dá.

Fizemos novamente a purificação das mãos e entramos no templo e nos fundos do prédio, tem um gongo/sino onde se faz as orações.
O ritual tradicional é feito jogando uma moeda de oferenda (*saisen*) dentro da grande caixa de madeira dentro do templo e depois se bate gongo com a corda vermelha. O som do sino serve para chamar as divindades e purificar o ambiente, espantando qualquer energia negativa que tinha antes da prece.

Sentimos uma vibração muito boa neste local e fomos pesquisar melhor.
Descobrimos que não é por acaso que este lugar é tão mágico, este prédio foi construído especificamente para sediar o Omizutori, um ritual de purificação budista que acontece todos os anos em março, desde o ano 752 d.C. segundo os monges do templo contam.
E dizem mais, que o evento nunca foi interrompido, o que significa que faz 1270 anos que este festival do fogo acontece.
Durante o festival, monges correm, exatamente nesse corredor que tiramos a foto, carregando tochas de fogo gigantes (de até 8 metros de comprimento).
Eles balançam as tochas na varanda, chovendo faíscas nas pessoas lá embaixo, os japoneses acreditam que essas faíscas trazem saúde e boa sorte para o ano todo.

Nem preciso dizer, que ficamos loucos para voltar para Nara em março, para presenciar esse pedaço de história tão antiga, depois de conhecermos também Quioto.
E as surpresas não pararam, pois em pleno complexo budista eis que encontramos um templo xintoísta, o Santuário Iimichi, pequeno e bonitinho.
Fomos pesquisar e descobrimos algo muito interessante, os monges do templo Todaiji (que são budistas) construíram pequenos altares xintoístas no terreno, para trazer a vibração e a proteção dos deuses xintoístas locais.

Para eles, era uma forma de garantir que os guardiões espirituais da terra protegessem o Grande Buda e todo o complexo contra incêndios, terremotos e energias negativas.
No Japão antigo, as duas religiões não competiam entre si, elas somavam forças espirituais, é mais do que sincretismo religioso, é parceria espiritual.
E para concluir nossa visita ao parque fomos conhecer o santuário xintoísta mais importante de Nara.
Santuário Kasuga Taisha
Seguimos as trilhas na floresta sagrada do santuário Kasuga Taisha, foi onde vimos mais cervos se aproximando, foi muito emocionante.
O caminho tem mais de 2 mil lanternas de pedra, chamadas de toro, elas funcionam como uma demarcação de energia.
E finalmente chegamos ao portão sul o Minamimon, a entrada “oficial” do santuário. Quanto mais entrávamos na floresta, mais encontrávamos pequenas construções.

Uma delas é o Gokitojo, um pavilhão onde os sacerdotes e sacerdotisas realizam as cerimônias de oração e também é o local onde funciona o balcão para obter os famosos goshuin (os carimbos caligrafados que os visitantes colecionam em um caderno especial).

Depois passamos pelo Chakuden, um pavilhão fechado à visitação e na sequência o Mizuya Jinja que é um santuário menor, dedicado a divindades ligadas à água, à prevenção de desastres e à cura de doenças.
Acho importante esclarecer, que no xintoísmo, os deuses são chamados de *Kami,* e não moram "dentro" de um templo ou pavilhão. Eles habitam na natureza, então toda floresta após o portão é o santuário, não existe uma construção só, são 62 locais de oração.
Cada um desses pequenos altares é o “local de descanso” de uma divindade específica.

Existem deuses para proteger as plantações, deuses da sabedoria, do trovão, das artes marciais, da água, do fogo, da cura de doenças e até deuses que abençoam os relacionamentos.
Os fiéis e visitantes fazem suas orações do lado de fora de cada casinha, na frente dos altares, se curvam e batem palmas 2 vezes de forma respeitosa.

Mas para o ritual ser completo, primeiro tem que fazer uma oferenda em dinheiro (*saisen*), jogar uma moeda dentro da caixa de madeira na frente do altar e depois se curvar e bater palmas.
O complexo do santuário Kasuga Taisha abriga e presta culto a mais de 50 divindades xintoístas individualizadas.
Mas o que torna este lugar tão especial é ser uma floresta primitiva, protegida por um decreto sagrado no ano de 841 d.C.
Ou seja, há quase 1.200 anos este lugar não sofre nenhuma interferência humana, pois a caça e o corte de qualquer planta são terminantemente proibidos. Não é por acaso esta floresta ter estes cervos maravilhosos e atrair tanta gente.
A beleza Zen do Jardim Yoshikien
Também fomos conhecer o jardim Yoshikien, um cantinho escondido bem pertinho do parque de Nara.
O que ele tem de mais interessante, além da paz e da beleza perfeita dos jardins japoneses, é que mostra três estilos diferentes de jardins tradicionais.
O primeiro é o jardim do lago, com um espelho d’água simplesmente lindo em volta.

O segundo é o jardim dos musgos, onde o chão inteiro é um tapete verde.
E o terceiro é o jardim da casa de chá, que dá vontade de ficar horas apreciando o silêncio.

O caminho é todo cheio de curvas, com vários pontos para sentar e “sentir” o lugar. É perfeito para meditar ou andar calmamente desfrutando da atmosfera zen.
Não tem como explicar esse lugar, acho que as fotos vão conseguir descrever melhor o ambiente.

Ficamos dois dias em Nara e foi pouco. Tem muito mais coisas interessantes para conhecer e é um local ótimo para relaxar, andar pela cidade apenas para, aleatoriamente, encontrar um cervo e sentir a vibração poderosa da floresta primitiva.
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