Ásia · Vietnã
My Son: O Retrato Vivo da Civilização Champa e dos Horrores da Guerra do Vietnã
· 3 min de leitura

Como é visitar o santuário de My Son saindo de Da Nang ou Hoi An, unindo os mistérios da antiga civilização Cham, os templos milenares na selva e as marcas reais da Guerra do Vietnã.
Neste artigo
Mỹ Sơn é considerado o mais importante santuário arqueológico do Vietnã porque ele não era apenas um templo isolado, mas sim o coração espiritual, religioso e político de todo o Reino de Champa.
Foi santuário e cemitério dos reis por quase mil anos, além de ser reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco.
A tradução da palavra My Son não tem relação nenhuma à palavra meu filho em inglês.
Em vietnamita, o nome significa Bela Montanha, justamente por ficar escondido em um vale cercado por morros verdes.
Para chegar no santuário, que fica a 45 km de Da Nang, a viagem leva menos de 1h30.
Não existe ônibus público que faça esse trajeto, então as opções são pegar carro privado, chamar um Grab, fechar um tour em agência ou comprar um passeio pela GetYourGuide.
Ainda tem a nossa escolha, que foi alugar uma moto e sair conhecendo as cidadezinhas e campos de arroz no caminho até My Son.

A estrada é muito boa e tem pequenas localidades para um cafezinho. Tiramos foto com a proprietária da cafeteria em que paramos, e ela nos contou que nunca tinha atendido clientes estrangeiros.
A Chegada, o Carrinho Elétrico e o Calor
Para organizar a visita, vale saber exatamente o que esperar da estrutura física do parque.
O valor do ingresso (cerca de 6 dólares) inclui gratuitamente um carrinho elétrico de ida e volta até a entrada das ruínas, no meio da floresta. Dali pra frente, a gente faz todo o caminho pelos templos a pé.

A caminhada pelas trilhas pavimentadas é plana e leva aproximadamente 2h para ver tudo com calma.
Dicas Práticas: Evite chegar perto do meio-dia, porque tem muito sol e pouca sombra, e é um horário em que o parque está cheio de excursões.
Leve protetor solar, água, repelente e boné, pois o vale é super abafado e úmido.
A Terra Sagrada Onde Ninguém Morava
Logo que a gente entra na trilha das ruínas, vem a primeira surpresa sobre o funcionamento daquele lugar no passado.
Diferente de outras cidades antigas que tinham mercados, casas e palácios, ninguém morava em My Son.
Ela é uma necrópole. Por mais de mil anos, entre os séculos 4 e 14, apenas sacerdotes e a realeza entravam no santuário para fazer rituais, funerais e sacrifícios aos deuses hindus, principalmente a Shiva.

Nos questionamos onde ficavam os túmulos dos reis, já que não tem covas nem lápides pelo chão.
Na verdade, quando um rei morria, ele era cremado e construíam uma nova torre para que a alma dele se unisse a Shiva.
As próprias torres funcionavam como mausoléus e guardavam as cinzas e relíquias reais embaixo das fundações de pedra.
Depois que o Reino de Champa entrou em declínio e acabou absorvido pelo avanço vietnamita, todo esse complexo sagrado ficou 500 anos escondido na selva, até que exploradores franceses redescobriram as ruínas no final do século 19 e, na época, ele estava intacto.
Até a chegada dos americanos...
O Labirinto de Letras e o Jeito de Andar
Os arqueólogos franceses que encontraram os templos dividiram tudo por letras para conseguir catalogar as ruínas.
Essa divisão serve para mapear os setores e o circuito é circular e muito fácil de andar a pé sozinho.

Os Templos são Divididos por Letras:
Grupos B, C e D: São os templos mais famosos, mais bem preservados e onde fica a maioria das fotos clássicas de Mỹ Sơn.
Grupo A: Conhecido historicamente como o grupo principal, mas que foi fortemente destruído pelos bombardeios da guerra.
Grupos G, E, F, H e K: São grupos menores distribuídos ao longo da trilha na selva.
Se você quiser, a bilheteria oferece um serviço de Audio Guide oficial por aplicativo que abre um mapa digital interativo que narra a história de cada grupo de templos conforme você caminha por eles.
O Mistério da Construção sem Cimento
As construções originais do povo Cham desafiam os engenheiros modernos até hoje.
Eles erguiam as estruturas sem nenhuma argamassa visível entre os blocos, que continuam super resistentes e colados uns nos outros sem esfarelar há séculos.
O segredo milenar desse povo consistia em polir cada tijolo até as superfícies encaixarem perfeitamente, sem deixar nenhuma folga. Para dar liga, os construtores usavam a resina de uma árvore da floresta, misturada com casca de caracol moída, criando uma supercola natural invisível que funciona até hoje.

Um dos lugares que está mais intacto e é possível ver de perto esta forma construtiva é a torre do cofre do santuário, onde os sacerdotes guardavam os objetos de valor espiritual usados nos rituais e oferendas ao deus Shiva.
O Segredo das Duas Cores na Única Torre Reconstruída
Seguindo pelo sítio arqueológico encontramos mais uma torre aparentemente inteira, mas neste caso descobrimos que foi reconstruída, já que o setor que ela está foi quase totalmente destruído e só sobraram escombros por causa dos bombardeios da guerra dos americanos, como eles falam.

Ela é torre do grupo G e foi refeita entre 2003 e 2013 por arqueólogos italianos em parceria com a UNESCO e o governo do Vietnã, aplicando a mesma técnica milenar da resina vegetal usada no passado, para assentar os tijolos novos.
As Cicatrizes de 1969 e a Maior Torre Perdida
Só que a história de My Son carrega um lado muito triste, e essa foi a parte que mais mexeu com a gente durante o passeio.
Durante a Guerra do Vietnã, os soldados vietcongues usaram a mata fechada do vale como refúgio e base militar.
Mas em agosto de 1969 os EUA lançaram pesados bombardeios aéreos atingindo o santuário.

Parte das 70 estruturas que existiam originalmente, viraram pó naquela semana.
A perda mais dolorosa ainda está em escombros, dá um aperto no coração de ver!
Segundo os arqueólogos franceses que documentaram o local antes da guerra, esse templo era considerado a obra-prima máxima da arquitetura Champa.
Era o prédio mais alto e sagrado de todo o vale, atingindo 24 metros de altura, quase o tamanho de um edifício de oito andares, cercado por seis torres menores que representavam os planetas e divindades.
No bombardeio de 1969, esse gigante veio abaixo.

É muito triste ver a história do mundo sendo destruída pela ignorância e cobiça dos homens!
E seguimos vendo crateras deixadas pelas bombas e encontramos dentro de umas torres em ruínas carcaças de bombas americanas não detonadas da Guerra do Vietnã/guerra dos americanos.

Andar por esse santuário nos faz admirar ainda mais o povo vietnamita, não só como um símbolo de coragem, mas também de resiliência.
Nos sentimos ainda mais conectados ao Vietnã.
My Son é o retrato vivo desse passado tão interessante e miscigenado do Vietnã. É o coração da antiga civilização Cham, que dominou parte do país por séculos antes de ser absorvida pela cultura vietnamita.
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