
Visitar Badaling sem multidões é possível! Veja como dormir na cidadela histórica, ver o nascer do sol na Grande Muralha vazia, encarar a Rampa do Herói e dicas de transporte.
Neste artigo
Badaling é o trecho mais famoso e lotado da Muralha da China, a cerca de 80 quilômetros a noroeste do centro de Pequim.
Quase ninguém te conta que dá para ter essa Maravilha do Mundo praticamente só pra você, mesmo escolhendo o ponto mais visitado do país.
O segredo é chegar na abertura dos portões, entre 6h30 e 7h30, muito antes das excursões que lotam o parque a partir do meio da manhã.
Em vez de encarar a correria de sair de madrugada da capital, nós decidimos ir no dia anterior para dormir aos pés da muralha.

Partimos de Pequim no trem bala de alta velocidade que corta as montanhas em cerca de 20 minutos.
A Cidade Antiga
Chegamos no final de tarde e tivemos a sorte de achar um hostel familiar dentro da antiga cidade murada de Badaling.

A cidade é tão pequena, tem pouco mais de meio quilômetro, que dá para atravessar toda a pé em menos de uma hora.
Foi construída na Dinastia Ming entre 1505 e 1571, para funcionar como um quartel e posto avançado das tropas que defendiam a muralha.
Tem poucas pessoas circulando e, pelo que percebemos, pouca gente dorme nessa vila. A gente caminha pelas ruazinhas de pedra e se sente num pedacinho do passado.

À noite, os donos do hostel prepararam pratos caseiros da montanha especialmente para o nosso jantar.
Provamos um macarrão fresquinho cheio de tomates e bok choy e um dumpling delicioso feito à mão, recheado de carne de porco para ser mergulhado no molho de soja e vinagre. Foi muito bom passar uma noite em um lugar preservado e com tanta história.
Por Que Badaling Virou o Trecho Mais Visitado
O nome Badaling significa "alcançar as oito direções" e é um labirinto de cristas de montanha que permite visão privilegiada de qualquer ameaça à distância, funcionando por séculos como o ponto estratégico mais importante de proteção da cidade imperial de Pequim contra as invasões.
Na década de 1950, esse foi o primeiro trecho da Grande Muralha aberto ao turismo internacional, graças à proximidade da capital e ao bom estado de conservação.

Essa escolha oficial consolidou a fama do local, que já recebeu visitas de centenas de chefes de Estado e personalidades mundiais e tornou-se um patrimônio mundial da humanidade.
O Nascer do Sol no Lado Sul da Muralha da China
Acordamos ainda no escuro para realizar o sonho de infância de subir os degraus da Grande Muralha.

O parque conta com teleférico, tobogãs e até funicular para quem não quer, ou não pode, encarar o desnível todo a pé.
Na nossa subida, preferimos abrir mão do teleférico para fazer o percurso inteiro caminhando junto com a população local.
Logo na entrada principal, a estrutura se divide em duas rotas opostas, o Lado Norte e o Lado Sul.

Quase todo mundo vai direto para o Lado Norte, onde está a Rampa do Herói, mas nós optamos por fazer o oposto, começamos a subir o Lado Sul.
Graças a essa escolha, pegamos esta parte da muralha vazia e silenciosa enquanto o sol começava a despontar no horizonte.
Não tenho como usar outras palavras a não ser mágico e lindo, foi a realização de um sonho.

Olhando de cima, a construção serpenteia, parecendo mesmo um dragão gigante de pedra.
Dica Prática: Algumas partes têm certa dificuldade de subir, porque há trechos super íngremes, degraus altos e irregulares, então vá com tênis ou bota confortável que tenha solado antiderrapante.
Para Que Serviam as Torres de Vigia
Ao longo dos quase 4 quilômetros abertos à visitação em Badaling, tem 16 torres fortificadas que marcam os pontos mais altos da serra.
Atualmente são os lugares usados para dar uma “descansadinha” da subida.

Mas antigamente, o interior das torres servia de depósito de armas e alimentos, além de abrigar os soldados que passavam meses isolados vigiando a fronteira no frio do inverno.
Quando qualquer movimentação inimiga surgia no vale, os guardas acendiam sinais de fumaça durante o dia e fogueiras à noite no topo das torres. O aviso visual corria de crista em crista em questão de minutos, formando um sistema de comunicação a longa distância muito eficiente para a época.
Nos questionamos sobre a dificuldade de invasão, pois a muralha é alta e em muitos lugares e tem precipícios, então achamos que devia ser intransponível. Só que não!
Fomos pesquisar e achamos algo inesperado...
Durante o avanço de Genghis Khan, em 1211, ao marchar em direção à capital imperial da China, os mongóis encontraram a passagem fortificada de Badaling fortemente protegida pelo exército da Dinastia Jin. Sabendo que um ataque frontal seria um massacre, Genghis Khan usou uma estratégia de distração inteligente.
Ele deixou uma parte do exército fingindo um cerco em Badaling, enquanto liderou secretamente sua cavalaria principal por uma rota alternativa sinuosa através do Passo de Juyongguan. Assim, ele surpreendeu os defensores por trás, atacou a passagem, abriu as portas de Badaling para o resto de suas tropas e controlou a região da antiga cidade imperial por 12 anos até a sua morte.
A gente se deu conta, de repente, do tamanho da história do mundo que estas muralhas guardam.
A Energia do Povo Chinês na Rampa do Herói
Depois de curtir o amanhecer e chegar ao topo do Lado Sul, voltamos para encarar a famosa subida Norte, que já recebia uma multidão de visitantes.
"Quem não sobe a Grande Muralha não é um verdadeiro herói." A frase clássica de Mao Tsé-Tung, gravada em uma pedra em Badaling, nunca fez tanto sentido para nós.

O mais emocionante daquela manhã não foi a beleza do lugar, mas vê-la cheia do povo da terra.
Encontramos famílias inteiras, idosos subindo devagarinho e crianças rindo, todos se apoiando para chegar juntos à Rampa do Herói, que é uma das subidas mais puxadas de toda a área turística de Badaling.
Em alguns pontos, há uma inclinação de quase 70 graus a uma altitude de 868 metros.
É muito íngreme mesmo, parece que a gente vai cair, mas tem tanta gente em volta que nos sentimos seguros. Sei que é algo estranho de dizer, mas é essa a sensação.

Ver aquele mar de gente fazendo o mesmo esforço lado a lado trouxe uma sensação de união difícil de explicar.
Enquanto outras seções preservam um ar mais selvagem e cheio de turistas estrangeiros, Badaling tem a energia chinesa pulsando forte e vimos pouquíssimos gringos ao redor.
Testemunhar essa conexão e esse orgulho nacional estampado no rosto das pessoas vale muito mais do que qualquer foto.
Naquele momento, quase no topo da Muralha, a gente sentiu a alma do povo da China.
O Desafio dos Ônibus Internos e do Didi
Apesar de toda a infraestrutura moderna na base da montanha, quem visita Badaling de forma independente precisa ter paciência na hora de circular pelo complexo externo.
Existe uma distância grande entre a rodovia e a portaria da muralha, que fica totalmente fechada para veículos particulares, um bloqueio que eu imagino que exista por questão de segurança.

Por conta disso, o deslocamento lá dentro depende de linhas de ônibus circulares gratuitos que ligam as estações de trem, os estacionamentos e as paradas de carros de aplicativo espalhados pelo vale.
Não vou mentir, a gente se perdeu um pouco.
Nossa maior dificuldade prática, foi traduzir qual ônibus interno pegávamos para chegar à entrada da muralha e no fim do passeio, localizar o ponto certo para chamar o Didi foi um exercício de calma.
As paradas ficam divididas em setores distantes e quase todas as placas informativas estão escritas apenas em chinês, sem tradução em inglês.
Mas justiça seja feita, sempre que pedíamos informações, as pessoas nos ajudavam, só que a gente não sabia falar em chinês o endereço aonde tinha que ir…
Mas, com paciência e um bom tradutor online, tudo se resolve.
Dica Prática: Como o Google não funciona na China sem VPN, baixe um tradutor offline no celular e tenha uma VPN para acessar os mapas.
Nós usamos a Surfshark e nos salvou em vários momentos.
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