
Nosso maior desejo ali era ver onde estava enterrada Madre Teresa. Mas a primeira coisa que nos disseram ao chegar foi: “Aqui não é mais Calcutá. É Kolkata.” Mudou de nome pra esquecer o passado colonial britânico.
Neste artigo
Até 2001, esta cidade era conhecida como Calcutá, mas nesse ano, o governo local mudou o nome para Kolkata para refletir a pronúncia correta na língua bengali, preservando a identidade cultural da região e rejeitando a versão oficial inglesa herdada do período colonial.
Estávamos muito ansiosos para conhecer esta parte da Índia que sempre esteve em nossos sonhos por desejo de conhecer o trabalho de Madre Teresa de Calcutá.
A Frenética Cidade de Kolkata
Chegamos a Kolkata, a sétima cidade mais populosa da Índia, à noite, e logo de cara, um contraste impressionante: nosso táxi, que parecia ter saído dos anos 50, cruzava as ruas movimentadas da cidade, cheias de motos, bicicletas e ônibus antigos (que são muito coloridos e bonitinhos). Aí, do nada, surge o ITC Royal Bengal, um hotel 5 estrelas super luxuoso. Quase como se fosse de outro mundo!
É incrível ver como o luxo e o caos coexistem de uma forma tão única nessa cidade.

Dica Prática: Tenha calma ao chegar no aeroporto, porque é quase impossível conseguir rapidamente Uber ou Ola (aplicativo de táxi da Índia), pois normalmente, eles aceitam e ficam cancelando. Depois de alguns minutos, surge um motorista de táxi simpático, dizendo o quanto é difícil conseguir pegar carro lá. A maioria das vezes, o preço é absurdo, mas tu podes oferecer um pouco a mais do que o Uber cobraria e eles topam.
Dica Prática: Tenha dinheiro trocado, pois eles "nunca" têm troco, já tivemos problemas em relação a isso, tanto em táxi, uber quanto tuk tuk.
No dia seguinte, fomos direto para o Indian Coffee House, na College Street, o café mais antigo de Kolkata, fundado em 1942, é o local onde líderes revolucionários, escritores e intelectuais costumavam se encontrar para discutir o futuro do país. Dá para sentir o peso da história enquanto você toma um simples café e cada mesa tem o nome de alguém.

Depois, andando pelas ruas, nos deparamos com o Memorial da Rainha Vitória, uma construção imponente que é um lembrete de como Kolkata já foi o centro do Império Britânico.
O Memorial fica no Maidan, o maior espaço verde da cidade, conhecido como os "pulmões de Kolkata". É um lugar cheio de vida, onde as pessoas praticam esportes, fazem piqueniques e passeiam sem pressa, para aliviar a tensão, pois o barulho e as buzinas realmente podem gerar um estresse desnecessário.

Na saída do parque tem algo muito diferente, que acho importante avisar, existem muitas Hijras, que são mulheres trans pertencentes a uma comunidade milenar na Índia, reconhecida como um terceiro gênero.
Elas se oferecem para ler a sorte ou pedem dinheiro e como sofrem muita exclusão social, costumam ser bem insistentes na abordagem.
Minha dica é andar com dinheiro trocado se você quiser doar. Seja sempre gentil, mas firme se não quiser, pois o estilo da abordagem delas pode dar um baita choque cultural em quem não está acostumado.
Dica Prática: Se você curte história, dê uma passada no Museu Indiano, que fica na mesma avenida e dá para ir a pé. É o mais antigo museu da Índia e de toda a Ásia e tem coleções impressionantes de artefatos históricos.

A Vibrante Espiritualidade de Kolkata
No dia seguinte, a "vibe" mudou completamente.
Nossa primeira parada foi na casa onde viveu Madre Teresa, é impressionante sentir a energia de um lugar que foi e ainda é, o centro de tanto amor e dedicação aos mais necessitados.
O túmulo dela se encontra em um salão fechado no andar térreo da casa, é uma estrutura de mármore branco com um epitáfio que diz: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei".
Estar neste lugar é o tipo de coisa que não tem como descrever, percorrer o pequeno museu vendo fotos de sua trajetória mexe muito com a gente, a caridade e a empatia são dois dos valores mais preciosos do ser humano, que todos nós devemos ter.
Foi um momento único, em meio ao caos da cidade, aquele cantinho de paz nos fez olhar para dentro.

Depois, seguimos para o Templo Dakshineswar Kali, localizado às margens do rio Hooghly. Esse templo é dedicado à deusa Bhavatarini, uma forma de Kali, a deusa da destruição que liberta as almas do orgulho e do ego, é um importante centro de peregrinação, um lugar que se percebe a fé no olhar das pessoas.

Estar ali, junto à população local, na margem do rio Hooghly, que descobrimos ser um braço do sagrado rio Ganges, vendo o sol se pôr, foi uma conexão maravilhosa… sem filtro, sem turista, um dos poucos lugares em que vimos os indianos em silêncio assistindo o pôr do sol.
Depois fomos pesquisar mais e descobrimos que por ser um braço do Ganges, ele recebe quase os mesmos tipos de rituais e oferendas de Varanasi, como banhos de purificação, rezas e flores na água, a única diferença é que ali não acontecem as cremações à beira do rio. Isto explicou completamente a vibração que percebemos no local.

Para fechar o dia, fomos ao Birla Mandir, um Templo hindu moderno e lindo, todo de mármore branco. A arquitetura dele é simplesmente maravilhosa e a energia do lugar é muito leve, mas eles levam a sério a devoção e respeito religioso.
Pode não parecer, pois os indianos em geral são alegres, animados e até muito curiosos, mas quando se trata dos templos… tudo muda. O respeito é absoluto.
Eles seguem cada norma com uma seriedade profunda, não se pode nem beber água dentro do templo. Quando tiramos uma água da mochila o guarda veio com cara de poucos amigos e nos mandou guardar, o mais engraçado é que não tem necessidade nenhuma de falar, a língua dos gestos e a cara feia são universais..rsrsrs
Dica Prática: Verifique as normas de comportamento do templo que vai visitar, na Índia eles realmente levam a sério o comportamento dentro dos templos.

O Copinho de Argila Descartável
Ao passear pela cidade, aproveite para tomar um chai masala no tradicional copinho de argila, que eles chamam de Bhar.
À primeira vista, confesso que ficamos chocados ao ver tantos copinhos fofos sendo simplesmente jogados no chão e quebrados pelas calçadas depois do uso, parecia um baita desperdício.
Mas depois fomos entender que é uma tradição antiga que resistiu à pressão do plástico por vários motivos.
Primeiro, pela higiene total, no hinduísmo antigo, usar um copo que outra pessoa já colocou na boca é considerado "impuro", então o copinho de barro garante que você é o único a usá-lo.
Segundo, porque eles são totalmente ecológicos e biodegradáveis, feitos apenas com a argila das margens dos rios locais e os amantes de chai na Índia juram que o copo de barro melhora o gosto da bebida, trazendo um saborzinho de terra especial.
É o copo descartável perfeito que a natureza criou! Tentei trazer um na bagagem como souvenir, mas não teve jeito e ele chegou em casa se esfarelando todo, é um ótimo aprendizado da impermanência das coisas.

Espero que este relato te estimule a dar uma passadinha em Kolkata, pelo menos para sentir a vibração do túmulo de Madre Teresa e observar a grande mistura indiana de caos, cultura e espiritualidade.
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