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Essaouira: Roteiro de Bate e volta de Marrakesh e Cenário de Game of Thrones

· 3 min de leitura

Essaouira: Roteiro de Bate e volta de Marrakesh e Cenário de Game of Thrones

Como é caminhar por Essaouira no Ramadã, unindo a herança portuguesa e as gravações de Game of Thrones.

Neste artigo

Nós fizemos um bate e volta para Essaouira saindo de Marrakesh (depois de atravessar o Estreito de Gibraltar), são cerca de 180 quilômetros de distância, numa viagem que leva entre duas horas e meia e três horas de estrada, passando pelo deserto.

Contratamos um tour privativo saindo de Marrakesh, em que o motorista nos buscou de van bem cedinho na porta do hotel e nos trouxe de volta no final do dia.

Como a nossa viagem coincidiu com o Ramadã, a estrada estava completamente vazia e silenciosa pela manhã.

Visão de dentro de um veículo em movimento mostrando uma estrada asfaltada e vazia com curvas suaves cruzando uma paisagem árida e plana sob o céu claro na rota entre Marraquexe e Essaouira no Marrocos

Durante esse período sagrado para os muçulmanos, a primeira refeição é feita antes do amanhecer e o jejum segue até o pôr do sol.

Isso deixa o início do dia muito tranquilo, mas a gente sentiu que as cidades ficam com uma energia estranha, uma espécie de calma "forçada" que dura até o anoitecer.

Por termos apenas um dia para conhecer Essaouira, concentramos o passeio na parte antiga da Medina e na região do porto. Sabemos que a cidade também tem uma área moderna à beira-mar que é bem interessante, mas infelizmente não tivemos tempo de visitar.

O nosso grande objetivo na cidade era ver de perto as locações onde foi gravada a terceira temporada de Game of Thrones, já que o lugar serviu de cenário para a famosa cidade de Astapor.

As Cabras nas Árvores e o Óleo de Argan no Caminho

No meio do caminho a paisagem mudou, o verde apareceu e surgiram as árvores de argan, que só crescem nessa região do Marrocos.

Fotografia na estrada de Marraquexe para Essaouira mostrando uma árvore de argan com tronco retorcido e galhos verdes sob o céu claro do Marrocos

No caminho, ficamos chocados ao ver um "pé de cabra".

É sério, vimos dezenas de cabras em cima das árvores, algo que virou ponto turístico.

Paramos na estrada para ver os animais que sobem nos galhos para comer os frutos do argan, enquanto os pastores ficam na beira da pista cobrando pelas fotos.

Fotografia na estrada de Marraquexe para Essaouira mostrando uma árvore de argan com muitos cabritos em cima das árvores

Mas faço uma ressalva importante, várias ONGs e órgãos de proteção animal criticam essa prática, pois alguns criadores amarram ou forçam as cabras a ficar sob o sol em plataformas de madeira nos galhos apenas para ganhar gorjetas dos turistas.

Nós não vimos isso acontecer e o dia estava fresco, mas vale ficar atento e não pagar nada se notar que os animais estão em sofrimento.

Mulher sorridente em primeiro plano segurando um cabritinho branco com manchas pretas no colo. Ao fundo, destaca-se uma árvore de argan com várias cabras equilibradas nos galhos, em uma paisagem árida de terra batida sob um céu azul sem nuvens no caminho para Essaouira.

Na época não sabia disto e devo confessar que amei pegar o cabritinho com carinho e ele não pareceu que tinha qualquer problema.

Logo depois entramos nas cooperativas de mulheres berberes para ver o processo artesanal de quebrar as sementes na pedra, extrair o óleo puro e comprar os frascos direto da produção.

A Chegada na Medina Durante o Ramadã

Chegando em Essaouira, desembarcamos em uma praça lindíssima, com palmeiras e flores roxas.

Acredite se quiser, este local se chama Jardins de Othello e fica na Place Orson Welles, na entrada da Medina.

Praça Orson Welles e Jardins de Othello com palmeiras e flores na entrada da Medina de Essaouira.

O nome homenageia o clássico filme Otelo, de 1951, que foi gravado na cidade quando ela ainda se chamava Mogador e ganhou o prêmio principal do Festival de Cannes. Ou seja, o cinema sempre fez parte da história do lugar, e o dado curioso é que ele inscreveu o longa representando o próprio Marrocos.

No fundo da praça seguindo o muro cor-de-rosa, que é a "muralha de proteção" da cidade antiga, a gente acessa o portal arqueado de Bab Sebaa para entrar na Medina (cidade velha), que é Patrimônio Mundial da Unesco.

Praça com gramado verde e palmeiras em frente ao grande portão de pedra arqueado de Bab Marrakech e o bastião militar circular em Essaouira

Assim que passamos pelo arco, o visual muda completamente e surgem os labirintos de ruelas e lojinhas locais.

A medina de Essaouira é Patrimônio da Unesco.

Como era Ramadã, a cidade estava muito parada e com pouca coisa aberta, mas conseguimos comprar um tapete maravilhoso por um preço muito em conta dentro da Medina.

Não tiramos fotos lá dentro porque ficamos constrangidos com o comércio local, já que nos olhavam de cara feia, e com o clima de recolhimento religioso das pessoas no mês sagrado.

Aproveitamos para tirar fotos apenas nos pontos abertos das fortalezas, onde não tinha gente em volta.

Cais do porto de Essaouira com vários barcos de pesca azuis enfileirados

A Invasão de Mogador e a Construção da Sqala du Port

Parece estranho, mas Essaouira quase foi uma cidade portuguesa e antigamente era chamada de Mogador.

No ano de 1506, os portugueses tentaram invadir e colonizar a área erguendo o Castelo Real.

A tentativa de colonização durou pouco tempo, porque os povos árabes e berberes locais se uniram e atacaram os portugueses com tanta força que eles foram expulsos em quatro anos. O forte dos portugueses foi destruído em 1510, sobrando apenas as ruínas.

Séculos depois, em 1764, o sultão árabe Mohammed ben Abdallah mandou demolir o que restava, construir uma nova fortificação e transformar o local no maior porto comercial do Marrocos.

Ponte de pedra antiga e muralha de fortificação com torres em Essaouira, sob um céu azul limpo

Foi neste lugar que nasceu a nova fortaleza chamada *Sqala du Port*, desenhada pelo engenheiro militar francês Théodore Cornut, e é por isso que este forte parece muito mais europeu do que uma construção árabe tradicional.

Os Canhões Europeus e o Cenário de Game of Thrones

Foi muito divertido ver o cenário onde Daenerys Targaryen e Ser Jorah caminhavam no primeiro episódio da terceira temporada enquanto avaliavam o exército de soldados Imaculados.

cenário onde Daenerys Targaryen e Ser Jorah caminhavam no primeiro episódio da terceira temporada

Um dado curioso é que a maioria dos canhões de bronze não foi feita no Marrocos, mas na Espanha e na Holanda no século 18. Alguns foram capturados dos europeus e outros foram dados de presente por reis ao sultão para conseguir permissão de comércio no porto.

Canhões antigos alinhados nas muralhas de pedra da histórica fortificação de Essaouira, com a torre de vigia e a cidade ao fundo sob um céu azul limpo

A Cidade dos Ventos

Essaouira é chamada de Cidade dos Ventos porque fica numa ponta de costa, aberta para o Atlântico e recebe os ventos alísios. Esses ventos são correntes de ar que sopram sem parar na direção da Linha do Equador, puxando o ar frio do oceano para o calor da terra firme.

Por isso, venta forte o ano inteiro e torna a cidade uma das capitais africanas do Kite Surf.

Vista do porto de Essaouira com barcos e gaivotas a voar sobre a água e edifícios históricos ao fundo sob um céu azul.

No porto, o que mais nos impressionou foi a quantidade de gaivotas voando ao mesmo tempo. Isso acontece porque a Ilha de Mogador, na frente da muralha, é uma reserva protegida onde elas fazem ninho, e o cais fica cheio de restos dos peixes que os pescadores limpam o dia todo.

Foi nessa mesma beira do cais que reconhecemos mais uma locação de Game of Thrones. Ali embaixo fica o prédio branco de portas azuis arqueadas que aparece na cena em que a Daenerys caminha pelo porto.

Selfie de casal sorrindo em primeiro plano enquadrado por uma grande abertura circular de pedra na muralha de Essaouira revelando o céu azul com gaivotas voando e as casas brancas da cidade ao fundo no Marrocos

Os Banheiros no Marrocos

Uma das coisas mais importantes de saber sobre o Marrocos, é que a maioria dos banheiros, principalmente nos restaurantes locais que não são de padrão internacional e nas Medinas, são banheiros turcos.

Que são basicamente um buraco no chão para agachar e um baldinho para encher de água e usar como descarga, pelo que entendi.

Fotografia de um banheiro turco tradicional no Marrocos mostrando uma placa de cerâmica branca instalada no chão com duas bases com ranhuras para apoiar os pés e um buraco central de escoamento ao lado de um balde verde com água

Tirei foto do banheiro para registrar esse choque cultural, depois a gente quase se acostuma... rsrsrs

Por Que os Barcos São Azuis

No porto, o que mais chama a atenção é aquele mar de lindos barquinhos pintados com um azul super vivo.

A gente descobriu que essa cor clássica deles mistura regras do governo, superstição dos pescadores e um passado histórico muito antigo.

A explicação oficial é que o governo do Marrocos usa um sistema de cores para identificar de onde são as frotas de pesca, e o azul cobalto ficou definido para os barcos de Essaouira, outras frotas usam as cores verde e vermelho.

Mas os pescadores locais também usam como parte mística e dizem que o azul funciona como proteção espiritual, espantando o mau-olhado e os espíritos ruins durante as pescas.

Para completar, a cor também lembra uma tradição de mais de três mil anos da região, que na antiguidade era famosa por produzir corantes naturais em tons de azul e púrpura extraídos de conchas marinhas.

Área do porto de Essaouira, no Marrocos, mostrando vários barcos de pesca tradicionais pintados de azul atracados na água e na rampa de concreto, com construções brancas ao fundo e uma gaivota voando no céu.

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